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segunda-feira, 16 de junho de 2014

Natureza e propósito do conhecimento de nós mesmos

Não foi por acaso que Sócrates disse conhece-te a ti mesmo. Ora, se já é desonroso ser ignorante com relação a qualquer questão que diz respeito ao trato da vida humana, quanto mais quando se é ignorante acerca de si mesmo, pois isso é o responsável por nos fazer tomar decisões equivocadas acerca de qualquer coisa, de forma que nos pareceremos cegos. Quanto mais importante for a regra, com maior dedicação devemos perceber se não estamos indo na sua direção contrária, como vimos acontecer com alguns filósofos. Pois esses, enquanto ensinam aos homens  que conheçam a si mesmos, propõem que não ignorem a dignidade e excelência pessoal e querem que eles possam contemplar em si algo que suscite neles algo a mais que a vã confiança e isso enche tais homens de arrogância.
Acerca do conhecimento de nós mesmos, devemos considerar duas coisas:
  1. Se nós atentarmos para aquilo que nos foi outorgado na criação e para a forma com que Deus continua sendo gracioso para conosco - mesmo depois da queda, poderemos então imaginar o quão grande seria a excelência da nossa natureza, caso não tivéssemos caído. Entretanto, nada que temos é nosso, tudo foi graciosamente concedido por Deus e, em tudo dependemos Dele. 
  2. Encaremos bem à nossa condição miserável após a queda de Adão. Reconhecer isto põe por terra todo espírito arrogante e toda confiança própria, cientes dessa vergonha, nos humilhemos.
Assim como, inicialmente Deus nos fez a sua imagem e semelhança para que pudéssemos entender tanto o zelo da virtude, quanto à meditação da vida eterna, assim como para que não tivéssemos a grandeza da nossa espécie aniquilada pela nossa estupidez, grandeza que nos distingue dos animais irracionais, é importante que reconheçamos que se fomos dotados de razão e inteligência, foi para que cultivando uma vida santa e reta, avancemos rumo ao alvo proposto de uma imortalidade feliz.

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O texto acima é uma paráfrase ou releitura dos escritos de João Calvino e refere-se ao Livro 2 das Institutas da Religião Cristã, Cap. 1, Parte 1. 

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