Não é de hoje que as
pessoas discutem sobre temas fundamentais que norteiam a fé cristã. O mais
importante em tudo, e o que de fato vai caracterizar um determinado ensinamento
como doutrina ou como heresia é o fato de ser compatível com a confissão de fé
dos cristãos.
Crer na inspiração da
palavra de Deus, crer na soberania de Deus, no pecado do homem, no sacrifício
da cruz de Cristo como sendo um ato necessário e suficiente para libertar o
homem do pecado e garantir a sua vida eterna, a crença na ressurreição dos
mortos, no juízo, etc.
Temos visto
recentemente uma polêmica por parte de alguns jovens calvinistas contra os chamados
"liberais", em especial a figura do ex-pastor presbiteriano Caio
Fábio D'Araújo filho em função principalmente de alguns de seus vídeos ele
afirmar que a bíblia contém erros e que ela não é a palavra de Deus, mas contém
a palavra de Deus.
Eu fui a procura dessas
informações a fim de elucidar as "meias-verdades" por trás dessa
"polêmica". Foi feito tanto alvoroço em torno das declarações do
Caio, que eu confesso a vocês que deu um pouco de trabalho para pesquisar tudo
e decidir por onde começar. Meu objetivo aqui é deixar um pouco meus posicionamentos
de lado e tentar encontrar um fundo de verdade, pois me é sofrível e doloroso
ver a Igreja de Jesus contendendo e se segregando por questões secundárias
enquanto que unida ela teria um potencial bem maior no que se propõe a fazer,
bastando para isso apenas aparar algumas arestas.
Bom, vamos começar pelo
Yago então.
A primeira mençao feita
ao Caio no site do yago foi no post "Como discutir teologia sem parecer um
débil mental: Falácias de apelo"[1]
Ao voltar para minha
terra, um amigo me enviou o vídeo do ex-pastor presbiteriano Caio Fábio. Era a
filmagem de um programa onde, após exibir um vídeo do Washer sobre a Ira de
Deus, ele gasta vários minutos perguntando repetidamente ao espectador, ao som
de violoncelos: “você é filho do Deus que odeia?”, tentando gerar um
desconforto naqueles que defendem que Deus odeia tanto o pecado quanto o
pecador (ainda que haja um amor de Deus que é comum a todos os homens) [1].
Eu particularmente não
vejo nenhum ataque nessa postagem, o Yago apenas usou a técnica do Caio Fábio
como um exemplo do que seria um apelo à emoção. E quanto ao escopo da postagem,
nada tenho a declarar, pois foge dos objetivos do texto.
Vamos então “às
heresias”:
No dia 3 de junho de
2013, o Yago posta em seu site o que seria uma refutação de um posicionamento
do Caio através de uma citação de Gresham Machen [2]; cita a seguinte fala do
Caio disponível no vídeo [3]:
Eu estou em Jesus, eu não estou na Bíblia. [...] O cara que
quiser que Jesus e a Bíblia toda deem certo tá danado. [...] Pela Bíblia é
melhor a gente acabar esse programa porque está todo mundo danado. [...] eu não
ando [conforme o texto bíblico], tanto quanto Jesus [...]. Quem quer andar com
Jesus, é assim. Quem quer base bíblica, vira fariseu, joga pedra.
Automaticamente
me veio o seguinte questionamento, por que o Caio Fábio afirma que essa
compatibilidade entre Jesus e a bíblia toda é impossível? Bom, no contexto da
explicação que o Caio fez no vídeo, o que ele quis dizer com a bíblia é ela
toda, principalmente a lei de Moisés mais a frente ele fala:
Jesus matou o
escrito de dívida que havia contra nós na cruz e esse escrito de dívida não era
uma lista do diabo, mas era o diabo se servindo da impossibilidade humana de
cumprir 100% da lei de Moisés. E como a própria lei de Moisés dizia que quem
obedecesse 99% e fosse transgressor de um só mandamento, era culpado de todos
os que não havia transgredido[3].
Portanto, o que
eu entendi do vídeo é que o Caio não propõe que arranquemos da bíblia apenas o
que Jesus falou e joguemos fora todo o resto, ou que pincemos da bíblia tudo
aquilo que gostamos e rejeitemos o que nos desagrada (isso seria um liberalismo
descarado). Mas o que dá pra entender nas entrelinhas do seu vídeo, é que ele
se refere àquelas igrejas que fazem a maior confusão entre a lei e a graça e
continuam a incorporar nos seus cultos elementos da cultura judaica, sendo que
a lei nunca salvou a ninguém, mas servia como um espelho para mostrar o quanto
somos pecadores e que é impossível para nós nos salvarmos a partir da adoção de
rituais da lei mosaica.
Acho que nesse
ponto o Caio se expressou de uma forma muito chocante de forma que quem não
assistir o vídeo todo não saberá que ele está falando daqueles que querem
encontrar uma compatibilidade entre toda a lei e Cristo, sendo que isto não é
mais necessário nos dias de hoje.
Bom, mas para
aqueles que insistirem nesse ponto, sugiro algumas leituras Mt 5.17-20, Gl
5:14, Gal 4. 18, Gl 4.4, Mt 12.1-3, Jo 8.3-11, Mt 15.12-20.
E o Yago Martins
responde com a seguinte citação:
Muitas vezes, tem-se a impressão que o liberal moderno
substitui a autoridade da Bíblia pela autoridade de Cristo. Ele diz que não
pode aceitar aquilo que considera um ensinamento de perversidade moral do
Antigo Testamento, ou os argumentos sofisticados de Paulo. Mas ele se considera
o verdadeiro cristão, porque, rejeitando todo o restante da Bíblia, ele só
depende de Jesus.
Então eu concluo que no caso do vídeo do Caio,
não se trata de rejeitar todo o restante da bíblia, mas sim de entender qual o
papel, qual a funcionalidade daquele texto em especial e se as atuais
interpretações de tais textos estão se dando de forma coerente e compatíveis
com aquilo que Jesus ensinou para a vida cristã no contexto atual. O que não pode é que as pessoas utilizem os
textos da lei a fim de inventar doutrinas, as quais são facilmente rebatidas a
partir da óptica de Cristo.
No dia 28 de
setembro de 2013, o Yago escreve mais um texto [4] confrontando as falas do
caio. Dessa vez, ele direciona a sua crítica a um foco mais específico, o resto
do Novo Testamento, ou seja, Atos dos apóstolos, as epístolas e o apocalipse.
Nas
primeiras vezes que eu li o texto da Grande Comissão e vi Cristo dizendo que
deveríamos ensinar os discípulos a obedecer tudo o que Ele ordenou, eu fiquei
me perguntando onde o resto do Novo Testamento entrava nisto. Não bastaria
ficarmos com aquilo que Cristo falou, e só? Se temos os ensinos do próprio
Deus-Filho registrados, para que mais palavras de homens mortais?
E mais uma vez cita a
mesma fala do texto anterior, onde quem lê nas entrelinhas sabe que fala da
lei, embora o Caio tenha falado de uma forma generalizada, talvez pra chocar os
que o assistem.
Em seguida, é citado um
texto do Caio que pretende responder o que Jesus disse acerca das escrituras e
sobre a questão da defesa do escrito bíblico. De fato, Jesus não faz nenhuma
defesa acerca da inerrância e autoridade das escrituras, mas mostra qual era a
sua finalidade naquele contexto, mostrar que o homem é pecador, incapaz de
cumprir a lei e agradar a Deus e testificar profeticamente acerca d’Ele. Sendo
que, no contexto de Jesus, a defesa se dava no ambiente acadêmico. Sempre que
eu falar Bíblia no contexto de Jesus, leia-se o Antigo Testamento.
O Caio no seu texto vem
mostrar que o objetivo principal da missão de Jesus não era formar eruditos
defensores dos textos sagrados, mas sim pessoas que testemunhassem do que
aprenderam com Ele. (Não quero com isso desmerecer o trabalho de nenhum
apologeta, pois o que eles produzem é muito importante para nós principalmente,
tendo em vista que não testemunhamos a vida e ressurreição de Cristo.)
É inegável que da Bíblia
a gente só tira essas duas conclusões citadas pelo Caio e pelo Yago, acho que o
Caio foi muito simplório e reducionista nesse ponto - não por má vontade, mas por essa mania que o
Caio tem de querer simplificar demais as coisas, e é aí que os caras caem matando.
Em seguida, cita um vídeo
no qual o Caio comenta os capítulos 9 – 11 de romanos e a sua defesa é que esse
texto seria um “um apêndice de um surto paulino”. Nesse caso, eu discordo com o
Caio, embora não tenha tanta base e tanta autoridade quanto os dois que
debatem. Rm 9 é um texto em especial básico para a construção da doutrina
calvinista da predestinação. Não quero entrar nessa discussão, pois isso iria
deixar o texto por demais longo; quero apenas deixar dois links sobre o que eu
penso do calvinismo e do texto de romanos 9 – 11: [6] [7].
Bom, nesse ponto o Yago
acertou, mas Romanos 9 não é assim tão fácil quanto muitos imaginam, acho que o
Caio viajou ao tentar simplificar as coisas, descartando essa parte da bíblia.
Se fosse simples, não haveriam tantos debates ao longo da história da Igreja em
torno desse tema.
No fundo no fundo, esse
é o ponto de concordância dos dois:
Ter
Jesus como nossa chave hermenêutica significa que nós vamos ler toda a
Escritura procurando como cada ensino, cada doutrina e cada livro se relaciona
com o Plano maior de Deus na redenção de Cristo, e não que vamos solapar tudo
aquilo que não gostamos na Escritura com a desculpa de que “Jesus não pregaria
isso” [4].
Espero que todos
entendam o que eu quis dizer aqui.
“Infelizmente, ainda
há, em pleno século XXI, quem tente opor Jesus aos outros escritores bíblicos.”
Poxa cara, você não
entendeu o que o Caio disse e fica aí generalizando. De fato, tem mesmo uns “teólogos”
que fazem isso que você está afirmando, mas não acredito ser o caso do Caio,
não pelo menos nesse ponto, acho que aqui se tratou apenas de uma gafe
interpretativa de uma passagem muito difícil. Eu acho que a paráfrase do final do texto do Yago
foi uma meninice de extrema imaturidade “Ler ou ouvir um sermão de Caio Fábio é
ouvir o que o inimigo tem a dizer”. Não acho que seja assim.
Sugiro também para
reforçar o que foi dito, o vídeo do Alexandre Costa (concordo em gênero, número
e grau o posicionamento do Alexandre), disponível em [8].
Se eu pudesse dar um recado
para o Caio Fábio agora eu diria: “a posição de pastor ou de conselheiro
espiritual é uma armadilha que a gente mesmo prepara, não é feio nem errado não
saber de tudo ou se retratar, ou até mesmo expor o a sua opinião pessoal
advertindo que ninguém é obrigado a segui-la, mas independentemente daquilo que
eu discordo contigo, louvo a Deus por você existir e pela ajuda que o senhor
presta a inúmeras pessoas que sofrem e precisam de uma palavra.”
Em outro vídeo [9], o
Caio expõe a sua tréplica adjetivando o Yago, dentre outras coisas, de
cartesiano; bom, nesse ponto de vista eu concordo, pois existem inúmeras
maneiras de se avaliar um sistema de conhecimentos, por meio da lógica
cartesiana típica dos ortodoxos – daí fala-se em sistema cartesiano “ortogonal”,
pode-se ver as coisas do ponto de vista da teoria dos sistemas, lógica Fuzzy,
dialética e por aí vai. O que eu quero mostrar aqui é que, como o conhecimento
evolui, a teologia também deve de certa forma apresentar aberturas para acompanhar
a evolução do humano (minha opinião).
Após isso, segue um
pequeno desabafo com reclamações do Caio, o que eu achei desnecessário para um
cara da idade e experiência de evangelho (ele poderia ter ficado na dele sem
trocar juízo com o jovem). No mesmo vídeo, o Caio afirma aquilo que vem a ser o
objeto de refutação do Yago:
É
assim que fica a alma humana [...] ensinada por essa Bíblia aonde Jesus,
Moisés, Josué, Jefté, Sansão… todo mundo está em pé de igualdade. [...] Então
tem que levar o que eles disseram aqui no Velho Testamento tão à sério quanto o
que Jesus veio e reformou, refez e recomeçou e acabou. Tá tudo igual. Então, é
impossível seguir a Jesus e o resto da Bíblia. Não dá!
Aqui ele está falando
de prioridade ou de ordem de importância, e não de textos mutuamente
exclusivos.
Depois
de Jesus, não dá pra seguir o resto da Bíblia toda. Só dá pra seguir da Bíblia
o que combina com o que Jesus ensinou. O que não combina, morreu. Esqueça!
Virou história, só isso.
Se a intenção aqui era
apenas de corroborar o que foi falado no discurso anterior, ele foi infeliz ao
falar dessa forma. Mas eu continuo crendo que é correto afirmar que entre o que
Jesus falou e alguns textos veterotestamentários existem prioridades bem
diferentes, e inverter isso é a principal porta de entrada para as heresias
neopentecostais.
O
que em Jesus é validado, afirmado e ensinado é a palavra eterna de Deus pra
sempre, o que em Jesus não foi validado, ensinado, vivido e encarnado, caiu na
caducidade, fazia parte de uma pedagogia do primitivismo da consciência.
Morreu! [...] Não dá pra ser de Jesus e obedecer a Bíblia toda. Quem quiser
obedecer só a Jesus vai ter que esquecer um monte de coisas da Bíblia que
morreram na Cruz.
Se partirmos da
premissa que a doutrina dos apóstolos e todo o NT e tudo que o AT fala acerca
de Jesus independentemente da linguagem está validado, ensinado, vivido e
encarnado em Jesus, o Caio está certo.
Teologuitos
da torre de marfim, é melhor vocês sentarem nas suas bengalas e se empalarem,
seus idiotados, porque a alma humana está sofrendo essa agonia, dessa mentira
que ensinam para as pessoas de que é possível ser crente na Bíblia inteira e
temerem Jesus. Não! Quem abraçou o evangelho fez uma escolha radical: deixou
pra traz um monte de coisas que já não cabem no odre novo do vinho novo,
morreram, entraram em caducidade. [...] É só de Jesus que você precisa.
Blasfemo é o que diga outra coisa. Esse blasfema contra o absoluto. Esse troca
o verbo encarnado por textos escritos por escribas. Os textos dos escribas eu
examino. Quando eles dão testemunho de
Jesus e da vida eterna, e quando mantém a coerência com o que o Cristo de Deus
encarnou e ensinou. O que já não mantém a coerência ficou pra traz, virou
história. E eu sigo com o ressuscitado.
Xingamentos
desnecessários, mas é assim que eles tratam um ao outro, o que eu acho
lamentável. O caio apresenta a parábola do vinho novo em odres velhos em um
momento mais que oportuno, a qual está inserida em um momento onde Jesus
discute o contraponto entre o legalismo e a prática do amor ao próximo, e o que
o Caio propõe em especial é esse conhecimento de Deus de vivência prática ainda
que contrariando o legalismo do contexto vigente e nesse ponto, eu vejo em
Jesus essa possibilidade além do mais, no texto de Mateus 9.10-17 elementos do
legalismo judaico que caem em obsolescência diante da práxis de Jesus.
O yago afirma em seu
texto [10]:
Porém,
com isso, (1.) ele nunca considera que ainda
existe uma aplicabilidade da Lei ao crente moderno,
Entendo que, em função
do pragmatismo do ensino do Caio, mostrar isso estava fora dos seus objetivos.
(2.) acaba solapando toda a Escritura
com uma visão que destrói todo o resto da revelação neotestamentária e até
mesmo a própria revelação que temos de Cristo na Escritura (o que foi provado
no post passado).
Eu concordo com o Yago,
reiterando o que já disse, só que trocaria essa palavra solapando por mutilando
e é aí a falha de grande parte de quem sistematiza a bíblia, tais
sistematizações são feitas a partir de recortes, o que nunca cobre um assunto
por completo e sempre deixa algo mutilado. É muito complicado elaborar uma
colcha de retalhos teológica que cubra a todo e qualquer questionamento.
Embora o Yago tenha
começado provocando, o caio também o chamou para a briga (Que falta de
compostura de ambos). Em seguida, o Yago afirma em seu texto:
O Antigo Testamento é divino, inspirado, sagrado, infalível e
útil para nosso ensino e instrução de todo aquele que crê em Cristo.
Concordo
plenamente, só tenho uma ressalva a fazer, que tipo de ensino e instrução? Pois
devemos convir que estamos falando sobre um cara que lida diariamente com as
mais variadas anomalias do meio evangélico e principalmente com aquelas que
utilizam o AT como base para as suas doutrinas, talvez por isso o Caio falou
dessa forma, afinal de contas, o trabalho dele é principalmente ajudar àquelas
vítimas do neopentecostalismo e não discutir teologia de gabinete (jamais quero
com isso desmerecer o trabalho dos teólogos sérios, ambos têm a sua relevância,
cada um no seu contexto).
O AT é útil para ensinar os crentes, redaguir (sic) os
crentes, corrigir os crentes e instruir os crentes em Justiça, que Caio Fábio
goste disso ou não!
Ok. Mas vamos
olhar um pouco pra fora e ver toda a confusão que o neopentecostalismo está
fazendo em torno do AT, não é todo mundo que o entende como a gente não, amigo.
Depois o Yago
faz um monte de citações que, eu aposto que o Caio conheça tudo isso, tendo em
vista o tempo que tem de crente e no final apenas uma argumentação
desnecessária que, a meu ver, não diverge em nada do que o Caio prega há anos –
a julgar pela extensa videografia em que ele prega sobre textos do AT.
Conclusão dessa
parte: poderiam ter evitado uma baixaria (totalmente desnecessário). Sem contar
com o título original do vídeo do Yago, esse tipo de palavreado não deveria ser
usado no meio dos crentes “cueiros”? Fiquei com vergonha do Caio nessa hora.
Vamos convir que
a Bíblia não é um livro científico e que teologia não é ciência e que, por mais
que se tente atribuir um caráter científico aos escritos procurando evidências
na biologia, arqueologia, física, história, etc., sabemos que a bíblia por sí
só se interpreta e se justifica, o que dá a ela um caráter não-científico, além
do mais, toda a teologia é dogmática, por mais liberal que seja e esses dogmas
não são falseáveis, tendo em vista que esse é o critério de demarcação do que é
ciência segundo Popper.
Mas independentemente
disso, eu creio na Bíblia por meio da fé, ainda que Darwin consiga provar a
teoria da evolução, pela fé, eu fico com a Bíblia. E se formos considerar toda
a história milenar do seu texto, as traduções já feitas, as mais variadas
interpretações é possível afirmar que a Bíblia possui erros sim, mas são erros
em especial de tradução e de interpretação; o que não me dá o direito de
diminuir a sua autoridade como um todo.
No texto
seguinte, o Yago tenta sistematizar o pensamento do Caio. Ele parte da premissa
que o início do argumento do Caio é a negação da inerrância, na mesma hora, fui
examinar o vídeo onde o Caio fala que a
Bíblia contém erros. Nos 2 primeiros minutos do vídeo, o Caio expõe de maneira
clara o seu entendimento sobre a relação entre Cristo e o AT citando o exemplo
de seu pai, até aí nenhum erro e ainda responde àquela implicância do Yago do
texto em [10].
O Yago cita no
seu texto a parte mais polêmica do vídeo do Caio, que trata da inerrância, e do
fato de que a Bíblia não é nem “um livro de Deus”, que “é um livro do homem” e
que “Deus tem livros melhores” (tenso isso). Mas o Yago critica ao Caio na
questão da sistematização e erra. O Caio não foi contra a sistematização em sí;
ele defende que é impossível sistematizar a Bíblia de capa a capa ou como ele
diz:
Sistematizar a Bíblia inteira pra fazer a Bíblia ser coerente
consigo mesma o tempo todo, em cada página, em cada verso, em cada letra. O que
é impossível.
Então, eu
humildemente na minha ignorância pergunto, é possível? Sem deixar nada de fora?
É possível provar que a Bíblia é integralmente sistematizável?
É claro que o
Caio sistematiza, é claro que ele sabe da importância dessa sistematização, a
resposta do Yago foi certa mas fora de contexto e de oportunidade.
Quando o Yago
fala:
Ele
está “somente rejeitando um sistema teológico e o trocando por outro”.
Mas é lógico, por isso que não existe apenas
uma corrente teológica, senão a teologia seria uma ciência exata. Espero que a
questão da sistematização tenha ficado clara.
Eu não acho o
Caio arbitrário, de maneira geral não. Mas concordo que soa muito estranho o
fato de ele dizer que Deus tem outros livros e que a Bíblia não é o livro de
Deus e acho que mais uma vez ele deve explicação.
Até aqui só não
entendo por que o Yago não refutou a seguinte fala:
A Bíblia não é inerrante. Nem na literatura; ela tem erros
literários, ela não é inerrante na cronologia; ela tem erros cronológicos, ela
não é inerrante nas genealogias, ela dá saltos generacionais e só fica em cima
das figuras pivotais para marcar a história. Ela não quer ser um livro de
ciências sobre como é que o mundo começou [12].
É evidente que
por mais liberal que o sujeito seja, a única forma de conhecer a narrativa de
Jesus de Nazaré é através da Bíblia (respondendo inclusive à ironia do Jackson Jacques)
a questão não é e nunca foi essa. Devemos lembrar também que falamos, não com
palavras que a sabedoria humana ensina, mas com as que o Espírito Santo ensina,
comparando as coisas espirituais com as espirituais. Ora, o homem natural não
compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não
pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é
espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido. Porque, quem
conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de
Cristo. 1 Coríntios 2:13-16
Assim, devemos
considerar o teor espiritual e prático das escrituras, não conhecer a Deus só
por teorias, por isso que Jesus ensina sobre o Evangelho e o Evangelho ensina
sobre Jesus. Por isso que a gente ora antes de pregar.
Analisando o trabalho
do Caio como um todo, o que eu entendi até aqui:
1 – Ele usa a
Bíblia como forma de conhecimento de Cristo, mesmo a considerando inerrante.
2 – Ele entende
a Bíblia em sua totalidade tomando Jesus como chave hermenêutica e
interpretativa.
3 – Acredita que
existem pontos na velha aliança que ajudam o cristão, desde que se leia a
partir de Jesus.
4 – Crê que
existem partes da lei que caíram em obsolescência diante da obra da nova
aliança de Cristo.
Acredito que o
Caio errou feio ao tentar explicar Rm9-11, mas dizer que Jesus não é a sua
chave hermenêutica, e que o que ele prega não é cristianismo é demais.
O Caio diz que “Culto
é uma coisa para imbeciloides e idiotados” mas faz cultos frequentemente. Fui ver o vídeo [13] em que ele diz
isso, ele não generaliza, e ele está certo no que diz, eu mesmo poderia dar
dezenas de exemplo do que ele falou, e culto não deve ser lugar de manipulação
(Rm 12.1,2).
Assim que ele tem anunciado sua doutrina e se autoproclamado
como o sumo pontífice da interpretação bíblica, afinal de contas, durante dois
mil anos, nem mesmo os discípulos compreenderam que Jesus deveria ser a “chave
hermenêutica” das Escrituras, mas ele, e somente ele, compreendeu isso.
Pura ironia para
chamar o CF de guru, arrogante, etc. É difícil assim entender Jesus como chave
hermenêutica da Bíblia? Os teólogos de antigamente já não faziam isso? Cadê a
honestidade intelectual?
Acusa Caio de
copiar Karl Barth, mas não se dá ao trabalho de refutar o que Barth afirma,
vamos tolerar, pois o Judas em questão é o Caio, não o Barth.
Aliás, é incrível como o Caio Fábio consiga defender essas
duas proposições tão distintas: ele defende que a Bíblia aponta a Palavra de
Deus, mas ao mesmo tempo diz que ela não é suficiente para carregar a Revelação
divina;
Mas é claro que
existem elementos da revelação divina que Deus guardou para si, ou para uma
realidade para além do que vivemos hoje (1 Co 13.9,10, 2 Co 12:2-4).
defende que a Palavra de Deus e a Escritura são conceitos
completamente diferentes, mas não consegue extrair a Palavra de Deus de outro
lugar que não seja a própria Bíblia! É muita contradição pra uma heresia só!
É muita forçação
querer dizer que o cara disse que Escritura e Palavra de Deus são conceitos
mutuamente exclusivos.
Para Caio o cristianismo não é um dogma a ser crido ou fé a
ser proclamada, antes, é um modo de viver, uma formalidade pela qual a
convivência nesse mundo se torna mais agradável, um mero caminho de vida.
Embora as
discussões teológicas do Caio sejam, em sua quase maioria, voltados para a vida
prática, não há provas no texto do que foi dito em relação a ele.
A discussão em
torno de picuinhas pessoais me cansou bastante e ainda por cima me fez
trabalhar demais. É lamentável ver o ímpeto inconsequente de um novato confrontando a birra e a imponderabilidade de um pastor mais velho. Mas acredito que há espaço para um diálogo se deixarmos de
lado o fator humano. É triste ver tanto xingamento entre aqueles que deveriam
ser exemplo para uma igreja emergente, sofrida e confusa com a celeuma
teológica e espiritual que existe no seio do protestantismo brasileiro. Mas
todo debate é salutar para a aprendizagem e reflexão das escrituras, elas que
são o que testifica de Cristo e embasa nossa fé e prática a fim de que tenhamos
a mente de Cristo.
REFERÊNCIAS
[1]
http://yagomartins.com/2012/11/como-discutir-teologia-sem-parecer-um-debil-mental-falacias-de-dispersao/
[2]
http://yagomartins.com/2013/06/profecias-cumpridas-caio-fabio-contra-gresham-machen/
[3] http://www.youtube.com/watch?v=GuCjSuACYMc&feature=youtu.be
[4] http://yagomartins.com/2013/09/nao-caio-fabio-jesus-nao-e-sua-chave-hermeneutica/
[5]
http://www.caiofabio.net/conteudo.asp?codigo=05222
[6]
http://www.youtube.com/watch?v=9X-4dUYbWD0
[7]
http://www.youtube.com/watch?v=9cW3A7z2S6Q
[8]
http://www.youtube.com/watch?v=eiM_jMsSv1o
[9]
http://www.youtube.com/watch?v=-iMITszNZow&feature=youtu.be
[10]
http://yagomartins.com/2013/10/caio-fabio-e-o-antigo-testamento-ou-motivos-para-nao-enfiar-uma-bengala-no-meu-anus/
[11]
http://yagomartins.com/2013/12/caio-fabio-como-chave-hermeneutica-trocando-sistematica-por-idolatria/
[12]
http://www.youtube.com/watch?v=YfvFGca8m7s.
[13]
http://www.youtube.com/watch?v=uvFqGYKpowk&feature=youtu.be